O acaso

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elza

O acaso

Mensagem por elza » 26 Jan 2005, 10:02

:wink:
... Ele parou o carro num local mais elevado, de onde podíamos ver o mar.
_ Mil trezentos e quarenta e nove _ começou.
_ A morte negra _ respondi. Eu sabia um pouco de história.
_ OK _ disse ele. E continuou: _ você deve saber que metade da população da Noruega sucumbiu à peste.
_ Você tem consciência de que naquela época você tinha milhares de antepassados?
_ Todos nós temos um pai e uma mãe, quatro avós, oito bisavós, dezesseis tataravôs, e assim por diante. Se você fizer as contas até voltar a 1939, chegará a um número bem grande. Concordei.
_ Então veio a peste, e as crianças foram as maiores vítimas. Naquela época, muitas centenas dos seus antepassados eram crianças. E nenhum deles morreu.
_ Como você pode ter certeza disso? Perguntei.
Ele deu uma risada e continuou.
_ Porquê você está aqui ao meu lado, olhando para esse mar maravilhoso.
_ A probabilidade de nenhum dos seus antepassados ter morrido ainda criança foi uma para muitos bilhões. Todos, todos os seus antepassados cresceram e tiveram filhos em épocas que foram palco das mais terríveis catástrofes. É claro que muitos deles chegaram a ficar doentes, mas todos sobreviveram. Por bilhões de vezes sua vida neste planeta foi ameaçada por insetos e animais selvagens, meteoros e raios, doenças e guerras, enchentes e incêndios ... _ Só na Guerra dos Trinta Anos você deve ter se ferido muitas centenas de vezes. No fundo, você travou uma guerra contra si mesmo e contra suas possibilidades de nascer três séculos mais tarde. E o mesmo vale para a Segunda Guerra Mundial: se algum bom norueguês tivesse abatido seu avô, nem eu nem você teríamos nascido. Estou falando de uma coisa que aconteceu milhões de vezes ao longo da história.
Todas as vezes em que uma seta cortou os ares sibilando, as chances de você nascer foram reduzidas a um mínimo. Mas aí está você.
_ Estou falando de uma cadeia única e longa de acasos _ prosseguiu meu pai. _ E essa cadeia pode ser acompanhada até chegarmos à primeira célula viva, que se dividiu e com isso deu início a tudo que cresce e medra no planeta. A probabilidade de minha cadeia não ter sido interrompida em algum ponto do passado ao longo de três ou quatro bilhões de anos é tão pequena que quase não podemos imaginá-la. Mas eu consegui chegar aqui, e ainda tive uma sorte do “cão” por ter o prazer de desfrutar desse planeta na sua companhia.
_ E aqueles que tiveram azar? _ perguntei.
_ Eles não existem _ Nunca nasceram.

A vida é uma loteria gigante, da qual só se vêem os ganhadores!

*Trecho do livro O dia do Curinga de Jostein Gaarder
adaptado por Lenizia C. Ferreira.

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